Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008
X - Inverno de 97 1.c

 

 

Ela acredita e decide ocupar-se com os animais no estabulo mas sente-o em perigo e volta para casa. Deita-se na cama, disposta a relaxar-se.
'Viu-o a conversar com a outra num restaurante ou algo parecido, estavam sentados a uma mesa, juntos um ao outro e, a outra não se convencia com o que estava a escutar. Ele queria acabar com os encontros, a sua esposa estava de volta! A outra não queria aceitar mas não discutia, sorria tristemente.'
*
As horas passam e ele não chegava. Sentia-o na estrada e, de repente, outra vez na cidade. Ele queria ir para casa mas, não conseguia. Estava com problemas de mecânica, qualquer coisa com o carro.
 Estava calor, ela mete-se na banheira para que a água a faça despertar das visões mas, cada minuto que passava o sentia mais em perigo e, começou a rezar, a rezar alto a pedir a todas as forças da natureza que o trouxessem para casa.
Ia para as janelas, o vento soprava, rezava com força, com desespero. Devia parecer uma bruxa, daquelas que se vê nos filmes. Mas ela, sentia-se essa bruxa a rezar alto pelo marido que estava em perigo, não se conseguia controlar. Pedia ao vento que o trouxesse, pedia ás forças da luz para o protegerem, sentia-se parte do vento, sentia-se fora da realidade e só parou quando os farois iluminaram o portão principal.
 
Quando ele voltou, disse-lhe que tinha estado a conversar com ela num restaurante na cidade, que lhe tinha dito que o melhor seria não se encontrarem mais, não aceitou bem mas, podiam continuar como amigos. Ao se pôr à estrada teve um furo. Voltou à cidade para o arranjar. Comeu e voltou à estrada e, teve outro furo. Tornou a voltar à cidade e, tornou a ter outro furo, mas só queria voltar para casa. Tinham de ter cuidado porque não tinham pneu para trocar.
 
- Mas uma semana depois tornou a sair sózinho. Tinha-a encontrado, por acaso, ela tinha saudades dele e queria que lhe fizesse umas visitas, de vez em quando. Não a podia abandonar assim, necessitava de tempo!
Cada vez regressava mais tarde. Tinha desculpas para o atraso, vinha ébrio. No carro haviam cabelos longos.
- “Estiveste outra vez com aquela mulher!”
- “Mentira, nem a vi!”
- “Há cabelos no banco do carro que não são meus.”
- “Foi só um bocadinho, encontrei-a por acaso.”
 
Começou por o receber com uma vela na varanda, com abraços e beijos carinhosos. Fazia jantar a contar com ele, arrumava a casa e tinha começado a decorá-la com o que tinha trazido de Portugal. Ele dizia-lhe para ir contar as galinhas, para montar cavalo, para confirmar o trabalho dos homens que limpavam o Fundo. Ele viria rápido. Saía lhe dando um beijo rápido, voltava sem a olhar.
*
- Uma das noites que ele tinha ido à cidade, não tinha dormido toda a noite, antes do sol despontar, levantou-se e começou a regar as flores, estava cansada de esperar e, sem aviso vê-o: ‘está na Granja, sentado a uma mesa repleta de jovens, um grupo grande. Estava triste e, não queria voltar para casa. Queria sair dali, fugir. A seu lado estava uma jovem de cabelos negros lisos e com uma t-shirt branca, de vez em quando punha-lhe a mão no ombro e, tentava animá-lo’
 
 Ele voltou com as primeiras luzes do sol, encontrando-a ainda no jardim, contou-lhe o que tinha visto –“Tão cedo e já te vieram contar?! Como tu sabes que eu queria ir embora?! Mas, não te preocupes, amor, jamais te abandonarei!”
 
Quem era ela? Que se passava? Sabe que utiliza sómente uma parte do cérebro e, telepatia não é ficção, desde sempre que o fazia com o marido. Mas, visões, alucinações, vozes? Tinha medo de estar louca. Queria ser uma pessoa normal e, pensar que tinha sido atraiçoada de uma maneira ignóbil, como todas as traições, mas, devia fazer a sua vida, esquecer aquele homem. Deixá-lo ser o que ele queria ser. Haviam muitos casais que se separam, nada era impossível. Ela tinha de cuidar da sua vida e, da sua cabeça. Precisava de ajuda profissional, já que o marido não a cuidava. O único que ela queria era amor, carinho e respeito, mas tudo o que lhe dava era desprezo, ódio e violência.
Ela não queria se tornar num farrapo humano por causa de um homem cruel.
*
Então iam à cidade juntos. Mas ele não gostava da sua companhia. Dava voltas e mais voltas à cidade, olhava para todos os lados. Diana começou com dôres de cabeça horriveis, dores no estomago, sentia-se fraca, só chorava. Deixou de comer. Deixou de se interessar pelo jardim, pelos animais, pela produção, não tinha força nem vontade para nada. Deixava-se embalar pelo calor e suava na cama entre delirios e realidade.
 
Uma tarde ele levantou-a da cama, meteu-a na banheira, deu-lhe banho e disse-lhe para se vestir bem. Levou-a a um restaurante chinês. Na rua passaram 2 miudas, que voltaram a passar de mota e, todo o jantar a mota circulava rua acima, rua abaixo.
- “Conheces?”
- “Quem? Não, não ligues.”
 
Levou-a ao Mandingo. Passado pouco tempo entravam 2 casais, sentaram-se de frente para eles. Uma delas dançava de frente a eles e, ele não tirava os olhos, vidrados, dela.
 
- “É aquela a tua namorada?” – sublinhou a palavra para estudar a reacção.
- “Não, nem a conheço muito bem.”
Beijou-a com uma ternura nunca antes sentida, mas aquele beijo não era para ela!
- “Eu não estou bem e, só queria saber se a tratavas como tua namorada!”
- “Vou à casa de banho!”
 
A miuda aproveita para a provocar: segura a garrafa de cerveja e passa-a pelos lábios, acaricia-a, como se fosse um penis e... ri-se.
Seria ela? Mas, não a consegue identificar com a menina virgem que o marido falara. Não podia ser ela. Esta tinha ar de mulher da rua, tinha tornozelos feios, delgados, cabelo escorrido e sem interesse , cara feia até, sem maquilhagem. Nada de especial e, tinha um comportamento obsceno. O vestido era curto e largo, poderia ser de uma gravida, e estava acompanhada por alguém que a tocava. Mas, a cara do marido a olhar para ela, não mentia, aquele beijo tão pouco!
No caminho acaba por confessar que era ‘ela’.
- “Devias estar muito bêbado para não veres o tipo de mulher que ela é!”
*
Em casa rompe em soluços e, pensa que a outra estava gravida. Por isso tinha tanta segurança nele. Explicaria o carinho que ele mostrara. O marido explica-lhe que não pode estar gravida porque sempre evitava e, mesmo que estivesse não haveria problema! Não sabia porque ela havia de estar tão preocupada com o assunto!
- “Tu trocas-me por uma mulher com metade da minha idade, que eu não posso competir e, dizes-me que ela pode ter um filho teu e, não vês problema nos meus sentimentos?! Eu perdi tudo. Sinto-me morta e tu só me mentes.”
- “Não perdes-te nada. Eu estou aqui, esta é a tua casa. Tens os cães. Não perdeste nada.”
- “Há coisas mais importantes. Eu não tenho vontade de viver. Não sinto alegria por nada, tu estás aqui mas só pensas nela!”
*
Uma noite de trovoada levantou-se da cama. Está nua, senta-se de pernas cruzadas sobre a mesa junto á janela, para apreciar os relâmpagos, naquele céu negro eram cativantes as trovoadas altas, tem o punhal na mão. Sentia-se hipnotizada, a ponta do punhal fere-lhe a barriga mas ela não quer parar, continua a espetar a ponta do punhal contra a sua carne, nada sente. De repente, ele está a seu lado, tira-lhe o punhal, leva-a para a cama e, abraça-a com tanta força que quase a sufoca. Durante muitas noites foi assim, por mais que transpirasse não a largava durante a noite.
*
*


publicado por Infiel às 00:52
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