Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008
X - Inverno de 97 1.a

 

 

X
 
INVERNO DE 97
*
 
Aterrou a 1 de Novembro 1997 num aeroporto que nada tinha a ver com o pavilhão que tinha visto na sua primeira visita, havia um plano para renovarem o aeroporto e o tornarem internacional. Nos poucos meses que tinha estado fora, a obra avançara.
Recebeu-a com um abraço e um beijo na testa. Não deu a importância á cachorra que, depois de 30 horas de viagem ainda tinha a transportadora seca e limpa. Tanto lhe pegava na mão, como a largava, não a olhava nos olhos. Diana chamava-lhe a atenção para a cadelita, orgulhosa do seu comportamento mas, tinha a sensação que ele não a escutava. Ajudou-a a transportar os 100 kilos de carga, sem fazer comentarios. Parecia que se tinham visto no dia anterior!!!
A casa estava limpa mas, não havia comida nem água no frigorifico. Os cães estavam gordos, mas ele parecia um cadáver, branco e de cabelos compridos.
*
- “Obrigado pelo dinheiro que mandaste o mês passado. Quase que morria de fome, mas não queria mexer no dinheiro a prazo.”
- “Não entendo onde gastas tanto dinheiro.”
- “Comprei mais vacas. A produção tem de subir, tenho um contracto para vender 40 litros diários, mas o dinheiro não chega. Tenho de comprar mais vacas. Já não as compro a $800, agora compro-as em Soles, a S/1.500 ($500).”
- “Eu trouxe mais dinheiro. Já deve dar para nos aguentarmos”
-“O jeep precisa de pneus. Mas aqui não há pneus para ele, só em Lima. Vais ter de lá ir!”
-“A Lima?! Eu acabei de fazer uma viagem de 30 horas, já não posso ver aviões á minha frente! Além de que estou demasiado cansada, trabalhei que nem uma escrava este Verão!”
-“Não tem de ser amanhã. Mas terá de ser o mais depressa possível porque os pneus tão todos carecas e é perigoso andar assim!”
-“Fala-se disso depois. Agora estou demasiado cansada, nem quero nem pensar em voltar a entrar num avião! Além de estar cansada fisicamente, necessito muito de tranquilidade. Contei-te que fui a um psicologo e parece que a única coisa que necessito é paz e descanso!”
-“E vais ter!”
-“Deves ter saudades dum bacalhau e pão caseiro. Olha aqui!” – mostrando-lhe o que trazia na arca de palhinha que tinha comprado em Azeitão. Ia desembrulhando os objectos e tentava chamar a sua atenção para eles, sentia-se um Pai Natal mas, a atenção não era a que gostaria de receber. Ele parecia alheado, longe, olhava-a mais como se fosse a primeira vez que a via, o sorriso saía forçado. Mas ela entretinha-se a arrumar as coisas, a distribuir goluseimas aos cães, a querer sentir-se em casa!!!
 
Sómente na 3ª noite lhe perguntou: Porquê?
Evitava-a e, quando ela se deitava ele ficava sentado à mesa a fumar, iluminado por uma vela.
Da cama lhe perguntou: “Porquê?” – queria uma explicação, uma desculpa, algo que a fizesse entender e ... nem sabe!
Ele levantou a cabeça, ergueu-se, deitou-se a seu lado.
- “Fui muy flaco
- “Porquê?”
- “Se me amas perdoas-me!”
- “Não se trata disso. Quero saber porquê, quero entender, quero saber como, quero saber tudo”
- “Estava muito mal, ela aparecceu pegou-me na mão e, levou-me a dançar, “Anda vais-te sentir melhor”. Eu fi-la parar e disse-lhe “Olha, eu sou casado, não te envolvas comigo” “Não importa” repondeu. Estava sempre a pedir-me para a levar aqui e ali.”
- “É ela a mulher da tua vida?”
- “Nem penses, foi só uma aventura.”
- “Mas tu disseste-lhe que a amavas. Tocaste-lhe como me tocavas a mim” – parecia que o via, que o ouvia, nem estava a tentar adivinhar, ela sabia!
- “E depois?! Qual é o problema!?”
- “Que idade tem ela?” – o seu coração tinha-se quebrado, as lágrimas corriam pelo rosto.
- “Esse é o problema! Tem 19 anos e ... era virgem!”
O grito saiu-lhe das profundezas do seu ser.
*
Pelas datas, tinha acontecido quando ela tinha despertado com a necessidade de ir ao Peru; foi quando se conheceram – estava num karaoke e ele, sentiu que ela cantava e dançava para ele! Sentiu que já a conhecia, que a voz não lhe era estranha. Mas tinha-se sentido mal, teve imagens de destruíção e saiu rápido, sem falar com ela.
*
Uma semana depois da mini lua de mel, encontrou-a novamente no Mandigo – única discoteca da cidade, na altura, de construção igual à sua casa.
-“Ela é muito pobre, vive numa barraca, tem pouca roupa, é muito meiga e quanto à diferença de idade ela mesmo me convenceu que não havia problema. Até me indicou um casal, ele com 60 e ela com 14 e, eram felizes. Aqui as crianças de 14 anos já são mulhers, têm de fazer pela vida bem cedo.”
Ela era a mulher mais bonita que já tinha visto, tinha cabelos longos castanhos olhos escuros e boca sedutora, extremamente inteligente e gostava muito de dançar. Mesmo quando ele não queria dançar (ele nunca tinha gostado muito de dançar ou de discotecas, estava sempre cansado!!!), ela ia para a pista sózinha. Ele ria-se, era uma miúda! Andava sempre de negro e tinha umas sandálias muito altas, que ele a avisava que lhe iriam fazer mal à coluna, mas ela não tinha outras... Tinha entrado na sua cabeça e, chamava por ele, e ele não conseguia resistir. Assim lhe contava sobre a outra.
*
- “Se eu fôr embora, que vais fazer?”
- “A mesma coisa. Trabalho aqui, que há muito que fazer e vou à cidade de vez em quando. Vamos sair juntos como antes.”
- “E se eu não fôr?”
- “Somos amigos e encontramo-nos às vezes!”
- “Tens tudo planeado?”
- “Não, isto é teu, tudo o que fiz foi para ti. Foi só uma aventura.”
- “Uma aventura!?”
- “Sim”
- “Mas essa mulher já não te vai largar!”
- “Pois não!”
- “E repetiste!”
- “Só fui 4 vezes para a cama com ela e, nem foi nada de especial. Ela não se mexe. Tu és muito melhor!”
*
Queria morrer, fugir, não podia ser verdade o que estava ouvindo. Uma floresta leva anos a crescer e um fósforo pôe fim a tudo. Tudo destruído!
Quis ir embora. Ele não a amava, não a tinha respeitado e tão pouco à outra. Não merecia nada do que tinha feito. A mala ainda estava semi feita, ainda tinha o dinheiro que tinha ganho nos últimos meses e, ia-se! Não queria voltar a Portugal, iria ser uma vergonha, estava frio também. Queria apanhar Sol, descansar, pôr a cabeça em ordem e depois, logo resolveria. Ainda tinha emprego e cabeça para trabalhar. Para onde ir? Se tivesse a sua casa teria para onde voltar, mas regressar á casa dos pais não a seduzia e ainda estaria de ferias até Abril. Não conseguia decidir, deixaria com o destino. O importante era sair dali!
*
- “Nem penses! Não vais a lado nenhum, gastar o dinheiro que deu tanto trabalho a juntar. Deixa-te estar sossegada, em Abril podes voltar, antes não!”
- “Tenho de ir embora, enquanto tenho cabeça e sinto raiva de ti!!! Eu preciso de descansar e estar tranquila e, nesta cidade não me vou sentir bem.”
- “Não sejas parva. Não vais a lado nenhum. Vais andar de cavalo, faz-te bem e tu gostas!”
 
Na manhã seguinte o calor despertou-a, ele estava a observá-la a dormir, já vestido.
“Levanta-te, vamos dar uma volta.” Levou-a a Neshuia, a aldeia mais perto da propriedade. No café-restaurante da Chelita encontraram um grupo de trabalhadores do projecto Camiseia, que estavam acampados perto para ligarem os tubos de gás natural. Ele dirigiu-se a um deles e pergunta pelo engenheiro Victor. Diz que deveria estar no escritorio. Dirigem-se ao escritorio, um pavilhão pre-fabricado, com ar condicionado e computadores. No caminho conta-lhe que tinha conhecido o Victor, uns meses antes, que era um tipo muito sociavel, de muita confiança mas mulherengo! Ele tinha comprado um Fundo no km 92 e, juntos discutiam ideias para o fazerem produzir.
*
O Victor era alto, olhos azuis, cabelo comprido atado em rabo de cavalo, fisico atletico, sorriso facil, falava perfeitamente Inglês e se não afirmasse que era Peruano, jamais acreditaria. De verdade o Victor era uma luz no meio daquele verde. Depois das apresentações terminou o relatorio que escrevia e, pediu-lhes para o acompanharem a seu Fundo.
*
*


publicado por Infiel às 22:43
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2 comentários:
De Lua de Sol a 3 de Fevereiro de 2008 às 02:10
Continuo a seguir. Estou presa à história, aos sentimentos, ao Perú... A ti:)

Uma beijoca imensa


De Infiel a 3 de Fevereiro de 2008 às 22:41

Obrigado!



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