Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
VIII - Sozinhos 1.a

 

 

VIII
 
SÓZINHOS
 
 
*
Sente o frio e a solidão. Compra um computador. Era fanatica de jogos, absorvia-se, entrava nos jogos e, esquecia que existia!
Pelo aniversário do casamento não lhe telefonou, tão pouco nos seus anos. Devia estar ocupado, como lhe tinha dito, andava a ganhar S/ 20 por dia e, não os podia gastar para telefonar a ela. Mas escreveu uma carta, dizia que a amava e que gostava de estar ali.
Ela não estava tranquila. Tão poucos telefonemas, cartas só com queixas, ele mesmo dizia que, tinha a sensação de remar contra a maré, como se estivesse a desafiar o destino, mas gostava de lá estar! O tempo haveria de passar.
Pelos anos dele telefonou-lhe a receber os parabéns. Nem agradeceu a encomenda que lhe tinha enviado com amêndoas e goluseimas para ele e seus meninos pela Pascoa. Nada se passava, só estava calor.
*
Uma manhã de Junho acordou em pânico, precisava de estar com ele. Tinha saudades dele, dos cães, de estar na sua casa, sentia-o em perigo e tinha de ir embora.
Nem pensou que tinha viagem marcada para Novembro, só mais uns meses e iriam ficar juntos. Sentia-o em perigo e tinha de ir. Ninguém lhe disse para falar com ele, esperar um mês mais. Falou com uma amiga que concordou com ela; não iria perder muito dinheiro se lá estivesse 15 dias, seriam umas férias. Poderia descansar, dormir, estar com ele. Em 4 meses mais compensaria a viagem e estaria com mais força!!!
Ela não dormia muito bem. Precisava dele a seu lado, esqueceu todos os defeitos, todas as necessidades e, também a sensação que ele a estava dispensando.
- “Marca-me viagem para Lima”
- “Para quando?”
- “Ontem!” - com um sorriso
- “E voltas?”
- “Sim , em 2 semanas”
Mas, não conseguiram confirmar o regresso, estava em waiting list.
Ele não telefonava, não sabia como avisá-lo que ia regressar.
 
Fez a viagem de novo: Lisboa – Frankfurt – Aruba – Lima – Pucallpa. Chegou às 10 da noite, hora local. Conseguiu um taxista que não teve receio de fazer a viagem até ao km 54, mas pediu-lhe autirização para a esposa o acompanhar, a estrada era perigosa, tinha chovido e haviam buracos. O preço que pagaria no hotel e dormir mais uma noite só, era mais alto do que se pôr a caminho. Lembra-se de tudo isso, com pormenores, a conversa sobre o preço a pagar, a senhora a sentir-se indisposta com a viagem tão longa, o calçar das botas para entrar no Fundo, substituindo o seu calçado de viagem por umas botas que aguentariam a lama do caminho ...
E, para quê???
*
- Mais uma vez se culpava. Tudo tinha feito para que ele se sentisse bem, todos os desejos satisfeitos e a paga: desprezo. Tinham sido 4 meses de solidão, tinha recebido 2 cartas, a 1ª dizendo que a amava, a 2ª que gostava muito dela. Que se estava a passar? Estaria com outra? Porquê? Ela não era suficiente mulher para ele? Não lhe tratava das feridas, da casa, dos câes, não trabalhava, nunca tinha comprado luxos para ela, sempre pensava primeiro nele?! Porque não lhe dizia que tinha saudades dela? Que o mais importante era estarem juntos e, que isso seria mais importante que terem mais dinheiro?! Ainda tinham bastante, não estariam a morrer de fome tão cedo...
 
Foi desligar o gerador, já estaria a acabar o combustivel. Eram 11 da noite e ele ainda não tinha regressado. Já tinha chorado, sentia-o com ela, não como das outras vezes, mas sabia que se tinham encontrado. Porque não voltava? Ela tinha-lhe dito que estava com maus pressentimentos e ele deixa-a sózinha de novo. Por que não consegue ir à cidade, fazer as compras e regressar? Por que tem de andar às voltas, jantar, dar mais voltas, ir à discoteca, visitar este ou aquele, andar às voltas? Por que não regressa a casa cedo? Por que tem sempre de comer na cidade? Não se importa que ela fique sózinha? Não sabe que ela não come, nem dorme, sem ele regressar? Em Portugal, quando chegava sempre lhe dava um beijo, lhe tocava com malícia. Depois, não mais, absolutamente nada. Desde que tinha ido para o Peru a sua relação sofreu, e para pior. O desinteresse de como se vendiam as coisas, ele só queria saber quanto dinheiro tinham, quanto tinha rendido a venda, a como estava o dólar.
*
Queria ir embora, fazer a mala e desaparecer. Não havia retrocesso. Ela já tinha pensado diversas vezes em o fazer. Uma altura até fez um esquema de vingança.
Compraria um jeep, deixa-lo-o escondido no pueblo, daria veneno às vacas, partiria a loiça, os quadros, rasgava o colchão, que tinha comprado em Lima e que teve de pagar com o visa já em Portugal para não o deixar com menos capital, pegava nos dois machos e, iria para o Norte-Oeste, à aventura. Queria vê-lo de rastos.
Mas eram só momentos de raiva, pedia a Deus que os transformasse em oração. Sentou-se nos degraus da varanda, observando as estrelas que iluminavam todo aquele cenario. Estava longe de tudo, estava no meio da escuridão total.
 
*
- Era meia-noite quando chegou ao km 54, tudo escuro, nem lua havia. Pensou em aproximar-se e bater á porta mas lembrou-se que a poderiam receber de espingarda, visitas àquela hora só podiam ter más intenções, tinha de fazer barulho, chamava os cães. Estava excitada de emoção, ia estar com eles!
Assobiava e gritava os seus nomes. O taxi tinha ficado na estrada porque o portão estava fechado a cadeado. Caminhava os 200 metros até á casa tentando evitar as poças de lama e chamava os cães.
*
*


publicado por Infiel às 12:51
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8 comentários:
De Bichana a 31 de Janeiro de 2008 às 15:12
Olá Infiel... estou sem palavras...
Tenho seguido todos os episódios, às vezes fico literalmente de boca aberta!Impressionante.
Eu não teria 1/1000 da sua coragem! Como se consegue amar um ser tão egóista como esse homem?
Um bjnho e um xi- para uma Guerreira que eu muito admiro.


De Infiel a 31 de Janeiro de 2008 às 20:13

Obrigado

karmas, auto-punição

Beijinhos


De Maaf a 14 de Fevereiro de 2008 às 15:25
Ai que até tenho cócegas!!!!


De Infiel a 15 de Fevereiro de 2008 às 00:38



De Maaf a 14 de Fevereiro de 2008 às 15:25
Tem graça, qd tenho uma zanga acesa, preparo sempre uma vingança mental... e fico melhor!


De Infiel a 15 de Fevereiro de 2008 às 00:40

não sou de as pôr em practica porque algumas são (ou foram) maquiavelicas mas, só o facto de as preparar já me acalmava e era capaz de andar dias a prepara-las mentalmente hehe
é bom saber que também o fazes


De Maaf a 15 de Fevereiro de 2008 às 10:06
Claro! Tb ñunca pus nenhuma em prática!!! Mas acalma-me!


De Infiel a 17 de Fevereiro de 2008 às 22:25

estou calma até conseguir soltar as amarras :)



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